E EIS QUE, TENDO DEUS DESCANSADO NO SÉTIMO DIA, OS POETAS CONTINUARAM A OBRA DO CRIADOR.
(MÁRIO QUINTANA)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

MENSAGEM DE ANO NOVO

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Comece por ligar o vídeo abaixo, e acompanhe o texto.

Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra bebida,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça esse nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

Receita de Ano Novo


quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

NATAL À BEIRA-RIO


NATAL À BEIRA-RIO

David Mourão-Ferreira

É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
A trazer-me da água a infância ressurrecta.

Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
Que ficava, no cais, à noite iluminado...

Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.

Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
À beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?

David Mourão-Ferreira,
Obra Poética 1948-1988


Nasceu em Lisboa em 1927 e faleceu na mesma cidade em 1996.
David Mourão-Ferreira foi poeta, dramaturgo, ficcionista, ensaísta, crítico literário e tradutor.
Formado em Filologia Românica, foi director do Serviço de Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, director da Revista Colóquio/Letras e professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Da sua vasta obra literária destaca-se, na poesia:
A Secreta Viagem (1950), Entre a Sombra e o Corpo (1980), Jogo de Espelhos (1993), Música de Cama (1994) e Obra Poética 1948-1988. David Mourão-Fereira traduziu, ainda, Imagens da Poesia Europeia (1972) e escreveu as letras de alguns fados cantadas por Amália Rodrigues.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

SERÁ AMOR?

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SERÁ AMOR?

Se tu visses o que eu vi
Assim que te conheci,
Não rias, como eu não ri
Pois logo compreendi
Que o que sentia por ti…
Era Amor!

O meu sossego acabou
O que era riso passou
Choro no rosto brilhou
Minh’alegria findou
E o que ficou…
Era Amor!

Porqu’é qu’isto aconteceu?
Quem o sabe não sou eu
Talvez em noite de breu
Eu veja o que sucedeu.
Esta “coisa” que me deu…
Era Amor!

Não pensava em namorar
Gostava até de brincar
Com coisas belas sonhar
Tudo, menos te beijar.
O que me estava a atacar…
Era Amor!

Mas teus beijos são gostosos,
Trazem mel. Tão saborosos
Que não há no mundo igual.
Ai, o Amor!

O que fazer, santo Deus?
Não quero nos lábios meus
Semelhante vendaval
Ai. O Amor!

Não sei o que pretendias
Quando beijos me pedias…
Disto lembrar, quem suporta?
Ai, o Amor!

Querias que eu abrisse a porta,
p’ra ocupar meu coração,
Mas a isso eu digo NÃO!

Será Amor?

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Maispa
Luz

Lisboa, Agosto de 2008

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A CONCHA-MENINA


A CONCHA-MENINA

Lá, onde o sol nasce no mar
Há uma cabana junto à praia
Que, dizem, foi habitada,
Por um génio
Que a deixou encantada.

Dizem ainda
Que nas noites de luar,
De uma concha que se abre,
Linda menina aparece
Logo se pondo a cantar.

Marinheiro que se preze,
Em noite de lua cheia
À praia vem espreitar
E escuta em doce enlevo
Da menina seu cantar.

E quando o dia amanhece
A concha volta a fechar
Mantendo dentro a menina
Que já não pode cantar
Até que surja o luar.

Maispa
Luz

Setembro 2009

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

AMAR OU ODIAR

AMAR OU ODIAR

Fausto Guedes Teixeira

Amar ou odiar
Ou tudo ou nada
O meio termo é que não pode ser
A alma tem de estar sobressaltada
Para o nosso barro sentir; viver
Não é uma Cruz que não se queira pesada

Metade de um prazer, não é um prazer!
E quem quiser a vida sossegada
Fuja da vida e deixe-se morrer!

Vive-se tanto mais quanto se sente

Todo o valor está no que sofremos
Amemos muito como odiamos já!
A verdade está sempre nos extremos
Pois é no sentimento que ela está.

Fausto Guedes Teixeira(11.10.1871–13.07.1940)

Natural da cidade de Lamego Fausto Guedes Teixeira, o expoente máximo do neo-romantismo na poesia lusófona, ficou conhecido como “Musset português” devido à sua poesia contemplativa e melancólica, claramente influenciada pelo estilo de Alfred Musset, poeta francês considerado o expoente máximo do romantismo clássico.
Nascido no seio de uma família aristocrata – seu pai foi o 1º.visconde de Guedes Teixeira - estudou Direito em Coimbra, onde conviveu com muitos dos mais brilhantes intelectuais da época.
Viveu algum tempo no Brasil e de seguida em Moçambique; no regresso a Portugal fixou residência em Lisboa, onde se manteve por 20 anos. Aí desempenhou, entre outras funções, a de jornalista.
Os últimos anos da sua vida foram passados na sua cidade natal, onde faleceu.
Lamego homenageou-o dando o seu nome a uma rua, e mandando erigir um busto seu em frente à Câmara Municipal.
Também em Lisboa e S. Paulo existem ruas com o seu nome.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

LÁGRIMA



Lágrima

Amália Rodrigues

Cheia de penas me deito
E com mais penas me levanto
Já me ficou no meu peito
O jeito de te querer tanto

Tenho por meu desespero
Dentro de mim o castigo
Eu digo que não te quero
E de noite sonho contigo

Se considero que um dia hei-de morrer
No desespero que tenho de te não ver
Estendo o meu xaile no chão
E deixo-me adormecer

Se eu soubesse que morrendo
Tu me havias de chorar
Por uma lágrima tua
Que alegria me deixaria matar


Amália Rodrigues
(1920-1999)

Comemora-se este ano o 10º.aniversário da morte de Amália Rodrigues, que ocorreu a 6 de Outubro de 1999.
Contava, à data, 79 anos de idade, já que nasceu em 1920, num dia de Julho que não se sabe ao certo qual foi.
Aquando da sua morte o então 1º.Ministro António Guterres decretou 3 dias de luto nacional.
Amália deixou uma imagem mítica jamais alcançada por qualquer outra personalidade.
Foi considerada a “Rainha do Fado”; e porque este género musical está intimamente associado à cultura portuguesa, devido às suas actuações num infindável número de países



foi também considerada uma das melhores embaixadoras no mundo.
Para a sua excepcional voz escreveram alguns dos maiores poetas e letristas seus contemporâneos, como David Mourão Ferreira, Pedro Homem de Mello e outros.
Amália gostava de “fazer versos” – como ela dizia - que só os amigos mais íntimos conheciam.
Constitui excepção o poema “Lágrima”, que ela própria cantou e o guitarrista Carlos Gonçalves musicou.

Eis o vídeo em que Amália canta o fado “Lágrima”.


Amália Rodrigues - Lágrima

domingo, 26 de julho de 2009

AVÓS



AVÓS

Luiz Poeta

Num guarda-jóias, num baú, num cofrezinho,
Guardam moedas, selos, fotos, alianças,
Cartas antigas, bibelôs e bilhetinhos,
Que revisitam quando querem ser crianças.

No coração, guardam saudades e lembranças,
Tempos felizes e, quando querem sonhar,
Fecham os olhos, sorriem, entram na dança
De um velho tempo que não pode mais voltar.

Quando estão tristes, basta só que um dos netinhos
Pequenininhos venha com eles brincar,
Trocando doces travessuras por carinhos,
Que eles voltam a sorrir e a sonhar.

Há tanta história na vida desses avós
Que se a gente pudesse ouvi-los contar,
Perceberíamos que nós, sim, estamos sós,
Quando não temos nem tempo para escutar.

Quanto mistério há em cada coração
De cada avô, de cada avó, e nós nem sabemos.
Tanta aventura, tanto amor, tanta paixão,
Vivemos tanto... e diante deles, o que temos?

São tão sozinhos, mas guardam tantas lembranças!
E o que querem de nós, senão o respeito?
Ah... meus avós, quando a dor nos faz crianças,
Que bom seria apertá-los contra o peito...

Autoria: Luiz Poeta -Luiz Gilberto de Barros

Luiz Poeta


terça-feira, 23 de junho de 2009

PEDE-ME



PEDE-ME

Pede-me tudo o que quiseres ter.

Queres a lua?

Num céu profundamente azul
Rodeada de estrelas mil,
Brilhantes,
A lua será tua, meu amor,
A lua dos amantes

Queres o sol?

Envolto em neblina
Para teus olhos proteger,
Sobre um glorioso mar,
De brancas ondas de espuma,
Para o teu corpo dourar
O sol será teu, meu amor.
O sol te vou ofertar

Queres a floresta?
Os rios?
O mar?
O céu azul em festa?

Um corcel alado montarei
Por entre as nuvens voarei,
Numa bandeja de prata
O céu azul colocarei
E a teus pés o deporei.

Tudo o que quiseres ter
Meu amor
Eu te darei

Pede-me tudo o que quiseres ter.

Só não me peças para te esquecer.

Maispa
Luz


Lisboa, 1997

terça-feira, 9 de junho de 2009

FAZER AMOR



FAZER AMOR É PISAR NA ETERNIDADE

Fazer amor é coisa séria demais...
Não basta um corpo e outro corpo,
misturados num desejo insosso,
desses que dão feito fome trivial,
nascida da gula descuidada,
aplacada sem zelo,
sem composturas,
sem respeito,
atendendo exclusivamente a voracidade do apetite.

Fazer amor é percorrer as trilhas da alma,
uma alma tateando outra alma,
desvendando véus,
descobrindo profundezas,
penetrando nos escondidos,
sem pressa,
com delicadeza...

Porque alma tem tessitura de cristal,
deve ser tocada nas levezas,
apalpada com amaciamentos...
até que o corpo descubra cada uma das suas funções.

Quando a descoberta acontece é que o ato de amor começa.

As mãos deslizam sobre as curvas,
como se tocando nuvens,
a boca vai acordando e retirando gostos,
provando os sabores,
bebendo a seiva que jorra das nascentes escorrendo em dons,
é o côncavo e o convexo em amorosa conjunção.

Fazer amor é Ressurreição!!!

É nascer de novo:
no abraço que aperta sem sufocamentos,
no beijo que cala a sede gritante,
na escalada dos degraus celestiais que levam ao gozo.

Vale chorar,
vale gemer...
vale gritar,
porque aí já se chegou ao paraíso e qualquer som há de sair melódico e afinado,
seja grave,
agudo,
pianinho...
há de ser sempre o acorde faltante quando amantes iniciam o milagre do encontro.

Corpos se ajustaram,
almas matizaram...

Fez-se o Êxtase!

É o instante da Paz...

É a escritura da serenidade!

E os amantes em assunção pisam eternidades!!!



Texto de um Frei do Colégio Santo Agostinho

segunda-feira, 1 de junho de 2009

DIA MUNDIAL DA CRIANÇA

Sei que o Dia Mundial da Criança é um dia para festejar – e festeja-se, em muitos locais e em muitas famílias.
Mas não podemos esquecer que a INÚNERAS crianças foi arrancado o direito a festejar.



É nessas, sobretudo que penso, ao dizer-vos:

Hoje, 1 de Junho, Dia Mundial da Criança, ocorre-me chamar a atenção para dois aspectos negros da vida de inúmeras crianças, que, no fundo estão interligados – A PEDOFILIA e A VIOLÊNCIA INFANTIL

Faço-o, trazendo até vós, primeiro, um texto de Faffi (Silvia Giovatto), - “PEDOFILIA” - e um poema de HumbertoPoeta – “POBRES PEDÓFILOS” - , seguidos de um poema de Cris Figueira – “QUEM TIROU TEU SORRISO”.

Pedofilia

faffi
(Silvia Giovatto)

O mundo em que eu nasci, não foi esse, o mundo em que eu quero viver, não é esse.

Quero um mundo de paz... Não pode haver paz onde o homem se assemelha a um animal.

O desrespeito às nossas crianças vem aumentando dia a dia .

Para que isso possa acabar, é preciso que se tome providencias enérgicas, contra essa pedofilia que vem assolando o nosso mundo.

Os pedófilos se escondem atrás de ternos e gravatas e vão praticando essa monstruosidade com as nossas crianças.

Meu grito é de agonia, por me achar incapaz de lutar contra esse mal.
Por favor me ajudem, gritem comigo, para que o nosso grito chegue até alguém capaz de varrer esse lixo-humano da nossa sociedade.

Prisão perpétua para esses cretinos, que se valem de crianças para saciar as suas bestialidades.

Olhando diretamente nos olhos de uma criança que passou por esse trauma, poderemos sentir o seu desespero a sua revolta.

É inexplicável que nada se faça, para que esse mal chegue ao fim.

POBRES PEDÓFILOS!
Humberto Rodrigues Neto

De que planeta bronco e primitivo
procedes com tua sanha animalesca?
De onde trouxeste essa paixão dantesca
que te reduz a um verme repulsivo?

Em que é que pensas quando a fronte lanças
no travesseiro que te embala o sono?
Em que refletes ao sentir-te o dono
de angélicos corpinhos de crianças?

Ah... pobre amigo... nessa compulsão
de torturar um pequenino ser,
nem imaginas quanto hás de sofrer
na eternidade de outra dimensão!

Não mais tendo a quem rogos dirigir,
vociferando entre mil ais agôneos
e a enfrentar toda a turba dos demônios,
só uma frase em teu caos irás ouvir:

"Cumpristes ao inverso, não contestes,
aqueles meus conselhos peregrinos
pois o que destes aos meus pequeninos,
foi, a mim, em verdade, que me destes"!

--- oOo ---


QUEM TIROU TEU SORRISO
(Cris Figueira)

Quem tirou teu sorriso de criança
dilacerando teus sonhos infantis
nunca soube das delícias da infância
não teve um passado tão feliz.

Causa-nos dor, horror, repugnância,
a besta-humana de atitudes vis.
Quem tirou teu sorriso de criança,
dilacerando teus sonhos infantis?

Os poderosos preocupados com a ganância
não enxergam o que acontece no nariz
sómente o povo agarrado a esperança
chora e clama mais justiça no país
para quem tirou teu sorriso de criança!

Rio de Janeiro
16 /05/09
*Dedico às crianças, vítimas de violência!*

terça-feira, 26 de maio de 2009

LIBERDADE



Se quiser comece por ligar o vídeo, abaixo, e acompanhe João Villaret declamando o poema.


LIBERDADE

FERNANDO PESSOA

Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...


Fernando Pessoa



Toda a gente conhece Fernando Pessoa. Por isso, dele, lembrarei apenas que nasceu em Lisboa, a 13 de Junho de 1888, e faleceu a 30 de Novembro de 1935, também em Lisboa.
É considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa, cujo valor é comparado a Camões.
Juntamente com Pablo Neruda, foi eleito, pela crítica, o mais representativo poeta do século XX


João Villaret :: Liberdade :: Fernando Pessoa

terça-feira, 12 de maio de 2009

AMO-TE MUITO, MEU AMOR

Amo-te muito, meu amor

Jorge de Sena

Amo-te muito, meu amor, e tanto
que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
depois de ter-te, meu amor. Não finda
com o próprio amor o amor do teu encanto.

Que encanto é o teu? Se continua enquanto
sofro a traição dos que, viscosos, prendem,
por uma paz da guerra a que se vendem,
a pura liberdade do meu canto,

um cântico da terra e do seu povo,
nesta invenção da humanidade inteira
que a cada instante há que inventar de novo,

tão quase é coisa ou sucessão que passa...
Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,
sei que se rasga, eterno, o véu da Graça.

Jorge de Sena


Jorge Cândido de Sena nasceu em 2 de Novembro de 1919 em Lisboa.
Faleceu em 4 de Junho de 1978.
Formou-se na Faculdade de Engenharia do Porto, trabalhando na Junta Autónoma de Estradas até 1959, data em que se exilou voluntariamente no Brasil.
A partir daí, desenvolveu uma actividade académica intensa nas áreas da literatura e cultura portuguesas.
Foi catedrático contratado de Teoria da Literatura na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis (Estado de São Paulo). Em 1961, transitou para a Universidade de Araraquara, igualmente em São Paulo, como catedrático contratado de Literatura Portuguesa.
Adoptou a nacionalidade brasileira em 1963.

terça-feira, 5 de maio de 2009

CANÇÃO DE EMBALAR


CANÇÃO DE EMBALAR

Composição: José Afonso

Dorme meu menino a estrela d'alva
Já a procurei e não a vi
Se ela não vier de madrugada
Outra que eu souber será p'ra ti

Outra que eu souber na noite escura
Sobre o teu sorriso de encantar
Ouvirás cantando nas alturas
Trovas e cantigas de embalar

Trovas e cantigas muito belas
Afina a garganta meu cantor
Quando a luz se apaga nas janelas
Perde a estrela d'alva o seu fulgor

Perde a estrela d'alva pequenina
Se outra não vier para a render
Dorme qu'inda a noite é uma menina
Deixa-a vir também adormecer

Zeca (José) Afonso

02/08/1929 – 23/02/1987


De nome completo José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, nascido em Aveiro, Zeca Afonso foi um notável compositor de música de intervenção, durante um dos mais conturbados períodos da história recente portuguesa. Como compositor, soube conciliar de forma notável a música popular e os temas tradicionais com a palavra de protesto.

CANÇÃO DE EMBALAR – ZECA AFONSO

terça-feira, 28 de abril de 2009

DEIXA ME FICAR CONTIGO, MÃE

NÃO QUERO IR EMBORA
Conversa de um feto, de uma Mãe que quis abortar


Não sei porque é que a minha mãe não gosta de mim!
Sinto-me tão triste!
Dantes, falava comigo,
acariciava-me,
fazia-me ouvir aquelas músicas bonitas
que a fazem sonhar...

De repente tudo isso acabou.
Porquê? Porquê?
Eu não lhe fiz nenhum mal…
É certo que às vezes lhe provoco dores,
ela contrai-se e geme,
mas é só porque preciso esticar as pernas.

Ela pensa que estou a dar-lhe pontapés,
que a quero magoar
mas eu seria incapaz de lhe causar a mais ligeira dor,
de propósito.

É sem querer, mãe, não entendes?

Foi por te ver assim tão triste que eu te disse:
quero ir-me embora!

Perdoa, minha mãe, eu não queria dizer aquilo.
EU NÃO QUERO IR-ME EMBORA!
Perdoa-me, por favor,
deixa-me ficar contigo para sempre.
Quando chegar a hora normal de enfrentar o mundo,
partirei,
mas continuarei ligado a ti.
Para sempre!
Vais orgulhar-te de mim, minha mãe.


Maispa
LuzMarço 2009

terça-feira, 21 de abril de 2009

MÃE, VEM OUVIR A MINHA CABEÇA…

FERNANDO PESSOA - POR ALMADA NEGREIROS


MÃE, VEM OUVIR A MINHA CABEÇA…

ALMADA NEGREIROS

Mãe vem ouvir a minha cabeça a contar historias ricas,
que ainda não viajei!!
Traz tinta encarnada para escrever estas coisas!
Tinta cor de sangue, sangue!
Verdadeiro, encarnado!

Mãe ! passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens!
Eu vou viajar, tenho sede!
Eu prometo saber viajar...

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um.
Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa.
Depois venho sentar-me a teu lado.
Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens.

Aquelas que eu viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.

Mãe! Ata as tuas mãos às minhas e dá um nó cego muito apertado!
Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa,
como a mesa.
Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

Mãe! Passa a mão sobre a minha cabeça!
Quando passas a tua mão sobre a minha cabeça é tudo tão verdade!


Almada Negreiros


De seu nome completo José Sobral de Almada Negreiros, natural de S. Tomé e Príncipe, Almada Negreiros (07.04.1893 – 15.06.1970) foi um artista multidisciplinar – pintor, escritor, poeta, ensaísta, dramaturgo e romancista. Foi um arauto do futurismo e das vanguardas.
Despertou ódios e paixões.
No ramo da pintura é famoso o seu quadro retratando Fernando Pessoa (ACIMA).
No campo das letras destaca-se o famoso MANIFESTO ANTI-DANTAS, assim como a frase:
“Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa - salvar a humanidade.”
Faleceu em Lisboa, no Hospital de S. Luís dos Franceses, no mesmo quarto onde tinha morrido Fernando Pessoa.

domingo, 12 de abril de 2009

RESSURREIÇÃO




RESSURREIÇÃO

JOÃO VIDEIRA SANTOS

trago no peito as chagas da tua dor,
os espinhos da cruz
onde a palavra gemeu na apatia do homem…

trago na ressurreição da fé a força e a coragem de,
nos olhos da esperança,
pedir perdão e acreditar
que todos somos irmãos,
mesmo que a resignação de alguns
não seja a de todos…

trago em mim a confiança,
o querer, a vontade,
para que, no melhor de nós,
ressuscite o homem que,
na semelhança de si,
construa um mundo melhor,
mais solidário,
mais fraterno,
mais igual.

Por gentileza do autor:

JOÃO VIDEIRA SANTOS

terça-feira, 7 de abril de 2009

POVO QUE LAVAS NO RIO




Se quiser, comece por ligar o vídeo, que está no final, e acompanhe Dulce Pontes

POVO QUE LAVAS NO RIO
Pedro Homem de Melo

Povo que lavas no rio
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão
Há-de haver quem te defenda
Quem compre o teu chão sagrado
Mas a tua vida não.

Fui ter à mesa redonda
Beber em malga que esconda
Um beijo de mão em mão.
Era o vinho que me deste
Água pura, fruto agreste
Mas a tua vida não.

Aromas de urze e de lama
Dormi com eles na cama
Tive a mesma condição.
Povo, povo, eu te pertenço
Deste-me alturas de incenso,
Mas a tua vida não.

Povo que lavas no rio
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão
Há-de haver quem te defenda
Quem compre o teu chão sagrado
Mas a tua vida não.


Pedro Homem de Melo


Porto, 6 de Setembro de 1904 — Porto, 5 de Março de 1984

Pedro Homem de Melo foi um dos colaboradores do movimento da revista Presença. Apesar de gabada por numerosos críticos, a sua vastíssima obra poética, eivada de um lirismo puro e pagão (claramente influenciada por António Botto e Federico García Lorca), está injustamente votada ao esquecimento. Entre os seus poemas mais famosos destacam-se: PRECE…MAS QUE EU MORRA EM PORTUGAL, Havemos de ir a Viana, O rapaz da camisola verde, e Povo que lavas no rio.


Dulce Pontes - Povo Que Lavas no Rio

sábado, 28 de março de 2009

O MEU PECADO


O MEU PECADO


Eu cometi um pecado,

Que não posso revelar.

Por ti ter-me apaixonado

A ninguém posso contar.


A ninguém posso contar.

É um segredo só meu

Que passará a ser teu

Depois q’eu to revelar.


Depois q’eu to revelar

Tu não contas a ninguém?

É que te quero, meu bem,

Mesmo sem poder te amar.


Mas por não poder te amar

Pareço estar no degredo.

Eu vou amar-te em segredo

Sem de ti nada esperar.


Nesta forma de encantar

Maispa

Luz


17/02/09

terça-feira, 24 de março de 2009

E DEPOIS DO AMOR

E DEPOIS DO AMOR

De mãos dadas
Nos olhamos em silêncio
E sem palavras
Dissemos tudo

Dedos entrelaçados

Bocas unidas

Corpos frementes

Viajámos no espaço


À nossa volta

A quietude da noite


Repousamos agora

Lado a lado
Exaustos
Tranquilos

Ainda unidos.

Sempre unidos.

Maispa
Luz

sábado, 21 de março de 2009

DIA DA POESIA EM PORTUGAL

No passado dia 14 celebrou-se no Brasil o Dia da Poesia, que aqui homenageamos no dia 15, com um belo poema de Carmo Vasconcelos.

Hoje, dia 21 de Março, comemora-se o Dia da Poesia em Portugal.

Como disse no post anterior, o Dia Mundial da Poesia foi instituído pela UNESCO com o objectivo de defender a diversidade linguística.

Hoje trago-vos um poema do grande poeta brasileiro Luiz-Poeta ,que homenageia a língua portuguesa e os escritores portugueses.



LUSOFONIA

Luiz Poeta

Na atualidade, a Língua Portuguesa,
Mais que a ousadia dos desbravadores,
Exprime e ostenta, em sua natureza,
A sublimidade dos seus escritores.

Brasileiro-lusa, Luso-brasileira,
A voz portuguesa é uma só nação,
Cujo som ecoa pela Terra inteira,
Como o batimento de um só coração.

Há, nessa fusão, bem mais que um idioma;
Um fundir de almas que emociona
Quem lê ou escuta essa nossa voz...

E é a emoção da alma lusitana
Que faz do Brasil, a pátria americana,
Da lusofonia viva em todos nós.


Luiz Poeta




Luiz Gilberto de Barros, artisticamente conhecido como Luiz Poeta, é intérprete, violonista, guitarrista, poeta, compositor, artista plástico e professor de Língua Portuguesa, Literatura e Produção de Textos, leccionando actualmente no Município do Rio de Janeiro, onde reside.

A sua obra artística é eclética e engloba mais de 10.000 trabalhos (músicas, poesias, ensaios, contos, novelas e crónicas).

É Director Cultural da Associação Cultural Encontros Musicais, sendo responsável directo pela sua criação, produção e correcção de textos.

domingo, 15 de março de 2009

DIA MUNDIAL DA POESIA NO BRASIL

O Dia Mundial da Poesia foi instituído pela UNESCO com o objectivo de defender a diversidade linguística.
Em Portugal festeja-se no dia 21 de Março; no Brasil, a celebração é no dia 14 do mesmo mês, em homenagem ao nascimento do grande poeta brasileiro Castro Alves – Antônio Frederico de Castro Alves (1847-1871.

Ontem, dia 14 de Março, não me foi possível publicar aqui nenhum post, como era meu desejo, para homenagear a Poesia e seus representantes brasileiros.
Faço-o hoje, trazendo-vos um poema da “nossa” Carmo Vasconcelos, que com ele homenageia os poetas brasileiros.


MINHA HOMENAGEM AOS IRMÃOS POETAS BRASILEIROS NO DIA DA POESIA - 14 de Março
Carminho Vasconcelos



AO POETA…
Carmo Vasconcelos

Deve amar-se sem pensar
em abarcar seu olhar
onde mora a imensidão…
Sem pretender decifrar
se ele nos ama ou não

Pois nem ele próprio sabe
se tem espaço, se em si cabe
único, um amor profundo…
Em seu peito alberga o mundo
paixão feita inquietação

Prosa, rima, abstracção
ferve-lhe a alma em cachão
gelam-lhe as mãos longos frios…
Nas ânsias do coração
corre-lhe o sangue em rios

E corre sem direcção
sem rumo, na indecisão
de prender-se a uma só voz…
Poeta é rio sem foz
sem margens sua ilusão

Poeta só pode amar-se
sem pretender sufocar-se
o ar que em versos respira…
Amando as suas ausências
que prós longes o atira

Afagando o seu regresso
sem nunca dizer-lhe “peço”
mas seu voltar festejando…
Que ele ao voltar está amando
pese o amor inconfesso

Nutrindo-o de imaginário
dando-lhe a beber o vário
mesa e cama encantamento…
Saciando-o de eternidade
na loucura de um momento

Só do hoje lhe servir
que ele não degusta o porvir
nem os sabores de amanhã…
Poeta sorve a maçã
do agora… pronta a cair

Deixem que as musas o amem
das alturas não o chamem
que as pedras do chão lhe doem…
Do sonho não o acordem
dêem-lhe penas que voem!

***
Lisboa/Portugal

(In 2ª Antologia do Grupo Ecos da Poesia ano 2006)

Carmo Vasconcelos


terça-feira, 10 de março de 2009

AS PALAVRAS

AS PALAVRAS
São como um cristal,
as palavras.

Algumas, um punhal,
um incêndio.

Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.

Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.

Tecidas são de luz
e são a noite.

E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade


EUGÉNIO DE ANDRADE
Pseudônimo de José Fontinhas Rato.
Poeta português nascido na freguesia de Póvoa de Atalaia (Fundão) em 19 de Janeiro de 1923.
Faleceu a 13 de Junho de 2005, no Porto, após uma doença neurológica prolongada.

terça-feira, 3 de março de 2009

PRECE...MAS QUE EU MORRA EM PORTUGAL!

(CONVENTO DE CABANAS)

PRECE...MAS QUE EU MORRA EM PORTUGAL!

Se quiser, comece por ligar o vídeo, e acompanhe Amália Rodrigues.

PRECE...MAS QUE EU MORRA EM PORTUGAL!

Pedro Homem de Melo

Talvez que eu morra na praia
Cercado em pérfido banho
Por toda a espuma da praia
Como um pastor que desmaia
No meio do seu rebanho.

Talvez que eu morra na rua
E dê por mim de repente
Em noite fria e sem luar
Irmão das pedras da rua
Pisadas por toda a gente.

Talvez que eu morra entre grades
No meio de uma prisão
Que o mundo além das grades
Venha esquecer as saudades
Que roem meu coração.

Talvez que eu morra no leito
Onde a morte é natural
As mãos em cruz sobre o peito
Das mãos de Deus tudo aceito
Mas que eu morra em Portugal.


Pedro Homem de Melo


Porto, 6 de Setembro de 1904 — Porto, 5 de Março de 1984

Poeta, professor e folclorista português, Pedro Homem de Melo fez de Afife (Viana do Castelo) terra da sua adopção. Ali viveu durante anos num local paradisíaco, no Convento de Cabanas, junto ao rio com o mesmo nome, onde escreveu parte da sua obra, "cantando" os costumes e as tradições de Afife e da Serra de Arga.

Prece - Amália Rodrigues


terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

EU

EU
FLORBELA ESPANCA

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber por quê...

Sou talvez a visão que alguém sonhou.
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou

FLORBELA ESPANCA

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

EM CIMA DA MINHA MESA

EM CIMA DA MINHA MESA
José Régio
Em cima da minha mesa,
Da minha mesa de estudo,
Mesa da minha tristeza
Em que, de noite e de dia,
Rasgo as folhas, leio tudo
Destes livros em que estudo,
E me estudo
(Eu já me estudo)
E me estudo,
A mim,
Também,
Em cima da minha mesa,
Tenho o teu retrato, Mãe!

À cabeceira do leito,
Dentro dum lindo caixilho,
Tenho uma Nossa Senhora
Que venero a toda a hora...
Ai minha Nossa Senhora,
Que se parece contigo,
E que tem, ao peito,
Um filho
(O que é ainda mais estranho)
Que se parece comigo,
Num retratinho,
Que tenho,
De menino pequenino...!
No fundo da minha mala,
Mesmo lá no fundo, a um canto
Não lhes vá tocar alguém,
(Quem as lesse, o que entendia?
Só riria
Do que nos comove a nós...)
Já tenho três maços, Mãe,
Das cartas que tu me escreves
Desde que saí de casa...
Três maços – e nada leves! –
Atados com um retrós...

Se não fora eu ter-te assim,
A toda a hora,
Sempre à beirinha de mim,
(Sei agora
Que isto de a gente ser grande
Não é como se nos pinta...)
Mãe!, já teria morrido,
Ou já teria fugido,
Ou já teria bebido
Algum tinteiro de tinta!

IN "As Encruzilhadas de Deus"
José Régio