E EIS QUE, TENDO DEUS DESCANSADO NO SÉTIMO DIA, OS POETAS CONTINUARAM A OBRA DO CRIADOR.
(MÁRIO QUINTANA)

terça-feira, 21 de abril de 2009

MÃE, VEM OUVIR A MINHA CABEÇA…

FERNANDO PESSOA - POR ALMADA NEGREIROS


MÃE, VEM OUVIR A MINHA CABEÇA…

ALMADA NEGREIROS

Mãe vem ouvir a minha cabeça a contar historias ricas,
que ainda não viajei!!
Traz tinta encarnada para escrever estas coisas!
Tinta cor de sangue, sangue!
Verdadeiro, encarnado!

Mãe ! passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens!
Eu vou viajar, tenho sede!
Eu prometo saber viajar...

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um.
Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa.
Depois venho sentar-me a teu lado.
Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens.

Aquelas que eu viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.

Mãe! Ata as tuas mãos às minhas e dá um nó cego muito apertado!
Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa,
como a mesa.
Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

Mãe! Passa a mão sobre a minha cabeça!
Quando passas a tua mão sobre a minha cabeça é tudo tão verdade!


Almada Negreiros


De seu nome completo José Sobral de Almada Negreiros, natural de S. Tomé e Príncipe, Almada Negreiros (07.04.1893 – 15.06.1970) foi um artista multidisciplinar – pintor, escritor, poeta, ensaísta, dramaturgo e romancista. Foi um arauto do futurismo e das vanguardas.
Despertou ódios e paixões.
No ramo da pintura é famoso o seu quadro retratando Fernando Pessoa (ACIMA).
No campo das letras destaca-se o famoso MANIFESTO ANTI-DANTAS, assim como a frase:
“Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa - salvar a humanidade.”
Faleceu em Lisboa, no Hospital de S. Luís dos Franceses, no mesmo quarto onde tinha morrido Fernando Pessoa.

12 comentários:

UMA PAGINA PARA DOIS disse...

Entre o que vejo e o que digo,
entre o que digo e o que calo,
entre o que calo e o que sonho,
entre o que sonho e o que esqueço,
a poesia.
Desliza entre o sim e o não:
Diz o que calo,
cala o que digo,
sonha o que esqueço.
Não é um dizer: é um fazer.
É um fazer que é um dizer.
A poesia se diz e se ouve: é real.
E, apenas digo é real, se dissipa.
Será assim mais real?

(Octávio Paz – México)

Desejo uma semana iluminada, com muita paz e amor.
Do amigo
Eduardo Poisl

Fernando Santos (Chana) disse...

Olá, espectacular....
Beijos

Maria João disse...

Querida Mariazita..

É extraordinária a leitura do verdadeiro sentido, por detrás das palavras coloquiais com que Almada Negreiros escreveu este poema em prosa.
Ele revela de uma forma que foi inovadora,na altura, o quanto é importante a imaginação (viagens) para a descoberta do eu interior, do poder criativo, o quanto é importante a consolidação dessa descoberta na experiência de vida (escritas com côr de sangue) e como tudo isto só faz realmente sentido e se torna verdadeiro quando imbuído de emoção e ternura( a mão da mãe que passa na cabeça.. as mãos atadas com nó cego).

Realmente extraordinário, não foi por acaso que Almada Negreiros e Fernando Pessoa foram grandes amigos e companheiros!

" As pessoas que mais admiro, são aquelas que nunca acabam"
A.Negreiros


Beijinhos e parabéns amiga, mais uma vez fizeste uma excelente escolha.

Desnuda disse...

"...Mãe! Passa a mão sobre a minha cabeça!
Quando passas a tua mão sobre a minha cabeça é tudo tão verdade!"

Que lindooooooooooooo! Amei não só o poema, mas saber um pouco do autor e esta curiosidade fantástica de ter falecido no mesmo quarto de Pessoa!


Beijão!

Maria João disse...

Querida Mariazita

É realmente engraçado, apercebermo-nos dessa correspondência de pensamentos e gostos, que referes. Também sinto o mesmo!
Mas sabes, tenho a convicção que não será por acaso... a vida, se soubermos colher dela os frutos certos, dá-nos quase sempre as mesmas lições...mesmo em experiências e contextos distintos.
Reconhecer alguém que está próximo de nós na leitura que fazemos dos afectos e do mundo, não é díficil... basta estar atento e sentir tão simplesmente, a empatia que nasce!

Beijinhos e uma noite tranquila

Multiolhares disse...

Poema tão lindo e tão actual.
beijos

O Profeta disse...

O post de grande qualidade...


Doce beijo

Canduxa disse...

Querida Mariazita,
Um poema que nos enche a alma.
A mãe, o único ser que consegue ouvir e sentir os desejos e os sonhos de um filho.
O sonho das viagem que não morre nunca ….. com tão pouco se pode ser feliz!
Adorei o poema!
Beijinho grande
canduxa

DE-PROPOSITO disse...

Mãe!
---------
Mãe!
É das palavras pequenas.
A maior que o mundo tem.
---------
Fica bem.
E a felicidade por aí.
Manuel

Daniel Costa disse...

Mariazita

Sem dúvida que Almada Negreiros foi um artista, criador do século passado, até porque foi inovador.
Creio, que terá estado uma vez apenas na televisão, como entrevistado, no célebre programa Zip Zip.
Tive a grata oportunidade de o ouvir.

Já agora, digo-te que postei ontem no daniel milagre um poema, onde está mencionado o Circulo de Leitores, a propósito da passagem do João Moisés por lá.

Beijinhos,
Daniel

UMA PAGINA PARA DOIS disse...

Canção do dia de sempre

Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...
Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...
E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...
Mário Quintana

Meus votos de um excelente final de semana, junto
às pessoas que ama.
Um abraço do amigo

Eduardo Poisl

Ana Martins disse...

Excelente post Mariazita,
um poema de amor tão profundo e tão lindo que emociona e arrepia!

Beijinhos,
Ana Martins