E EIS QUE, TENDO DEUS DESCANSADO NO SÉTIMO DIA, OS POETAS CONTINUARAM A OBRA DO CRIADOR.
(MÁRIO QUINTANA)

sexta-feira, 30 de abril de 2010

DIA DA MÃE

No Dia da Mãe, nalguns países chamado de “Dia das Mães”, instituiu-se o hábito de homenagear a Mãe, cada um a sua em particular, e todas de um modo geral.
Escrevem-se bonitos textos, compõem-se maravilhosos poemas, todos os filhos querendo presentear a “sua” Mãe da melhor forma possível.
Oferecem-lhe uns versos, uma flor, um qualquer presente.
A Mãe é rainha nesse dia que lhe é dedicado.
Contudo, há Mães que não sabem o que é receber um presente dos seus filhos, simplesmente porque eles ignoram que esse dia existe.
A essas heroínas anónimas, essas “Mães Especiais” dedico estas singelas palavras, e para elas elevo, neste momento, o meu pensamento solidário.
É esse mesmo pensamento que me leva a partilhar convosco este “tristemente belo” poema do meu amigo Humberto-Poeta.

Mães Especiais

Humberto Rodrigues Neto

Nos longos vãos dos corredores, ou nos bancos
lá da AACD, mães fatigadas, mas serenas,
ao peito arrimam, sejam claras ou morenas,
míseros filhos mutilados... tortos... mancos!


Precoces rugas pela face... Alguns fios brancos
entre os cabelos, não refletem mais que amenas
e leves provas ante as mudas e árduas penas
de ver um filho se arrastando aos solavancos!


Mas em nenhuma, cujo filho é a inglória palma,
a gente nota um leve ar de oculto pranto,
mesmo um gemido a perturbar-lhe a altiva calma!


É que aos pequenos deficientes Deus quer tanto
que os não confia a quem não traga dentro d'alma
o amor sem termo que há num mártir ou num santo!

* * *
AACD - Associação de Assistência à Criança Deficiente

domingo, 25 de abril de 2010

25 DE ABRIL – DIA DA LIBERDADE

25 DE ABRIL – DIA DA LIBERDADE



PARA QUE AS MEMÓRIAS NÃO ESQUEÇAM:



Era de noite e levaram
Era de noite e levaram
Quem nesta cama dormia
Nela dormia, nela dormia

Sua boca amordaçaram
Sua boca amordaçaram
Com panos de seda fria
De seda fria, de seda fria

Era de noite e roubaram
Era de noite e roubaram
O que na casa havia
na casa havia, na casa havia

Só corpos negros ficaram
Só corpos negros ficaram
Dentro da casa vazia
casa vazia, casa vazia

Rosa branca, rosa fria
Rosa branca, rosa fria
Na boca da madrugada
Da madrugada, da madrugada

Hei-de plantar-te um dia
Hei-de plantar-te um dia
Sobre o meu peito queimada
Na madrugada, na madrugada


Luís Pignatelli e Zeca Afonso

Luís Pignatelli (pseudónimo literário de Luís Oliveira de Andrade) nasceu em Espinho a 1 de Janeiro de 1935 e morreu em Lisboa a 20 de Dezembro de 1993.

José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, mais conhecido por José Afonso ou Zeca Afonso, nasceu em Aveiro a 2 de Agosto de 1929 e faleceu em Setúbal a 23 de Fecereiro de 1987

quarta-feira, 21 de abril de 2010

CICLO DE POESIA ERÓTICO/SATÍRICA (V)

(Foto minha)
ESPARSA SUA AO DESCONCERTO DO MUNDO

(Poema satírico)

Luis Vaz de Camões

Os bons vi sempre passar
no mundo graves tormentos;
e, para mais me espantar,
os maus vi sempre nadar
em mar de contentamentos.

Cuidando alcançar assim
o bem tão mal ordenado,
fui mau; mas fui castigado.
Assim que só para mim
Anda o mundo consertado.
Luís Vaz de Camões nasceu em 1524 ou 25, provavelmente em Lisboa, filho de Simão Vaz de Camões e Ana de Sá.
Faleceu em 10 de Junho de 1580

quinta-feira, 8 de abril de 2010

CICLO DE POESIA ERÓTICO/SATÍRICA (IV)

Image and video hosting by TinyPic

BEIJOS
(Poema erótico)

Deixa que eu beije tuas orelhas, teus cabelos,
a fronte, os olhos, as tuas mãos e os antebraços;
quero o teu ventre e os teus quadris em beijos tê-los,
e em beijos ter as tuas pernas e os teus braços!

Do dorso às nalgas, do pescoço aos cotovelos,
do ombro aos seios, que não restem leves traços
do que eu não beije... a boca, os pés e os tornozelos
deixa-me encher de beijos puros ou devassos!

Que em teus joelhos e em tuas coxas meus desejos
jamais encontrem empecilho em que os encubes,
e expostos fiquem dos meus lábios aos adejos!

Mas, pelos Deuses! Por Osíris! Por Anúbis!
deixa-me pôr o mais ardente dos meus beijos
no teu vestíbulo do céu, ao sul do púbis!



Humberto Poeta


Humberto-Poeta fala de si:
Meu nome: Humberto Rodrigues Neto - nick - Humberto – Poeta
Nasci em São Paulo, Brasil, a 11 de novembro de 1935
Escrevo desde 1948 - estilo de minha escrita: Parnasiano
Meus poetas preferidos; Olavo Bilac - Guilherme de Almeida - Cruz e Souza - Vicente de Carvalho - Florbela Espanca

quarta-feira, 24 de março de 2010

CICLO DE POESIA ERÓTICO/SATÍRICA (III)

CAIR DO ALTO

(Poema Satírico)

E ficou com as mãos pousadas no teclado,
Esquecida, a cismar num mundo de riqueza:
Supunha-se num baile, um conde apaixonado
Segredava-lhe: «Adoro-a!… Eu mato-me, marquesa!…»

Ah! se fosse fidalga!… Ao menos baronesa…
Que baile! que esplendor na noite de noivado!…
Estremeceu, nervosa, achou-se na pobreza,
E o piano soltou um grito arrepiado.

Absorvida outra vez, prendeu-se-lhe o sentido
À mesma ideia – o luxo. Ia comprar cautelas…
E imaginou de novo o conde enfurecido…

Um palácio, um coupé, esplêndidos cavalos…
Nisto o marido entrou, de óculos e chinelas,
E miou com ternura: — «Anda aparar-me os calos».

Garcia Monteiro - Poeta do Séc. XIX
1859 - 1913


Manuel Garcia Monteiro (1859-1913) nasceu na cidade da Horta, ilha do Faial, Açores.
Devido a dificuldades económicas, parte para Lisboa arranjando um lugar como prefeito num colégio e estudando na Escola Politécnica. Por questões de saúde, vê-se obrigado a regressar aos Açores.
Em 1883 funda o jornal O Açoriano, dedicando-se inteiramente ao jornalismo. Nove meses depois, parte para os Estados Unidos da América a tentar a sorte.
Fixa-se em Boston, trabalhando como tipógrafo e continuando os estudos. Forma-se em Medicina, que exerce nos E.U.A., e colabora em várias publicações nacionais e estrangeiras.

Suas obras:
- Versos - 1894
- Rimas de Ironia Alegre - 1896

quarta-feira, 10 de março de 2010

CICLO DE POESIA ERÓTICO/SATÍRICA (II)

DELÍRIO
(Poema erótico)
Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frémitos carnais, ela dizia:
– Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!

Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.

Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
– Mais abaixo, meu bem! – num frenesi.

No seu ventre pousei a minha boca,
– Mais abaixo, meu bem! – disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci....

Olavo Bilac


Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac nasceu em 16 de Dezembro de 1865 no Rio de Janeiro, onde faleceu em 28 de Dezembro de 1918.
Foi jornalista e poeta e membro fundador da Academia Brasileira de Letras.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

CICLO DE POESIA ERÓTICO/SATÍRICA (I)

SEGUNDA
(Poema erótico)
Quando foi que demorei os olhos
sobre os seios nascendo debaixo das blusas,
das raparigas que vinham, à tarde, brincar comigo?...
... Como nasci poeta,
devia ter sido muito antes que as mães se apercebessem disso
e fizessem mais largas as blusas para as suas meninas.
Quando, não sei ao certo.

Mas a história dos peitos, debaixo das blusas,
foi um grande mistério.
Tão grande
que eu corria até ao cansaço.
E jogava pedradas a coisas impossíveis de tocar,
como sejam os pássaros quando passam voando.
E desafiava,
sem razão aparente,
rapazes muito mais velhos e fortes!
E uma vez,
de cima de um telhado,
joguei uma pedrada tão certeira,
que levou o chapéu do senhor administrador!
Em toda a vila,
se falou, logo, num caso de política;
o senhor administrador
mandou vir, da cidade, uma pistola,
que mostrava, nos cafés, a quem a queria ver;
e os do partido contrário,
deixaram crescer o musgo nos telhados
com medo daquela raiva de tiros para o céu...

Tal era o mistério dos seios nascendo debaixo das blusas!

Manuel da Fonseca


Manuel Lopes Fonseca, comummente conhecido como Manuel da Fonseca[1] (Santiago do Cacém, 15 de Outubro de 1911 — 11 de Março de 1993) foi um escritor (poeta, contista, romancista e cronista) português.
Membro do Partido Comunista Português (PCP), Manuel da Fonseca fez parte do grupo do Novo Cancioneiro e é considerado por muitos como um dos melhores escritores do neo-realismo português. Nas suas obras, carregadas de intervenção social e política, relata como poucos a vida dura do Alentejo e dos alentejanos.
Deixou vasta obra poética e romances de ficção.
Era presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores quando esta atribuiu o Grande Prémio da Novelística a José Luandino Vieira pela sua obra Luuanda, o que levou ao encerramento desta instituição.
Em sua homenagem, a escola secundária de Santiago do Cacém, chama-se "Escola Secundária Manuel da Fonseca".

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

CICLO DAS ÁRVORES (FINAL)

Árvores do Alentejo

Florbela Espanca

Horas mortas... curvadas aos pés do Monte
A planície é um brasido... e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol pesponta
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
-Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!

Florbela Espanca


Florbela Espanca nasceu no Alentejo, em Vila Viçosa, a 8 de Dezembro de 1894.
Faleceu em Matosinhos em Dezembro de 1930

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

CICLO DAS ÁRVORES (CONTINUAÇÃO)

Árvores
Olavo Bilac

“Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores novas, mais amigas:

Tanto m
ais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas…


O homem, a fera, e o insecto, à sombra delas
Vivem, livres de fomes e fadigas;

E em seus galhos abrigam-se as cantigas

E os amores das aves tagarelas.

Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo! envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem:

Na glória da alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!”

Olavo Bilac



Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac nasceu em 16 de Dezembro de 1865 no Rio de Janeiro, onde faleceu em 28 de Dezembro de 1918.
Foi jornalista e poeta e membro fundador da Academia Brasileira de Letras.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

CICLO DAS ÁRVORES

No meu blog HISTÓRIAS DE ENCANTAR iniciei o ano com um post dedicado à Natureza.

Aqui vou seguir essa mesma linha de pensamento, homenageando a Natureza numa das suas mais expressivas e importantes componentes: as Árvores.

Vou dedicar-lhes três poemas, a que chamarei “Ciclo das Árvores”.
O primeiro, que se segue, é da autoria daquele que considero o Poeta Maior da poesia portuguesa: Luís de Camões.
Os outros dois poemas serão publicados nas próximas semanas.

Árvores
Luís Vaz de Camões

Árvore, cujo pomo, belo e brando,
natureza de leite e sangue pinta,
onde a pureza, de vergonha tinta,
está virgíneas faces imitando;

Nunca da ira e do vento, que arrancando
os troncos vão, o teu injúria sinta;
nem por malícia de arte seja extinta
a cor, que está teu fruto debuxando.

Que pois me emprestas doce e idóneo abrigo
a meu contentamento, e favoreces
com teu suave cheiro minha glória,

Se não te celebrar como mereces,
cantando-te, sequer farei contigo
doce, nos casos tristes, a memória.
Luis Vaz de Camões
Luís Vaz de Camões nasceu em 1524 ou 25, provavelmente em Lisboa, filho de Simão Vaz de Camões e Ana de Sá.
Faleceu em 10 de Junho de 1580

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

MENSAGEM DE ANO NOVO

Image and video hosting by TinyPic

Comece por ligar o vídeo abaixo, e acompanhe o texto.

Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra bebida,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça esse nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

Receita de Ano Novo


quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

NATAL À BEIRA-RIO


NATAL À BEIRA-RIO

David Mourão-Ferreira

É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
A trazer-me da água a infância ressurrecta.

Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
Que ficava, no cais, à noite iluminado...

Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.

Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
À beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?

David Mourão-Ferreira,
Obra Poética 1948-1988


Nasceu em Lisboa em 1927 e faleceu na mesma cidade em 1996.
David Mourão-Ferreira foi poeta, dramaturgo, ficcionista, ensaísta, crítico literário e tradutor.
Formado em Filologia Românica, foi director do Serviço de Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, director da Revista Colóquio/Letras e professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Da sua vasta obra literária destaca-se, na poesia:
A Secreta Viagem (1950), Entre a Sombra e o Corpo (1980), Jogo de Espelhos (1993), Música de Cama (1994) e Obra Poética 1948-1988. David Mourão-Fereira traduziu, ainda, Imagens da Poesia Europeia (1972) e escreveu as letras de alguns fados cantadas por Amália Rodrigues.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

SERÁ AMOR?

Image and video hosting by TinyPic

SERÁ AMOR?

Se tu visses o que eu vi
Assim que te conheci,
Não rias, como eu não ri
Pois logo compreendi
Que o que sentia por ti…
Era Amor!

O meu sossego acabou
O que era riso passou
Choro no rosto brilhou
Minh’alegria findou
E o que ficou…
Era Amor!

Porqu’é qu’isto aconteceu?
Quem o sabe não sou eu
Talvez em noite de breu
Eu veja o que sucedeu.
Esta “coisa” que me deu…
Era Amor!

Não pensava em namorar
Gostava até de brincar
Com coisas belas sonhar
Tudo, menos te beijar.
O que me estava a atacar…
Era Amor!

Mas teus beijos são gostosos,
Trazem mel. Tão saborosos
Que não há no mundo igual.
Ai, o Amor!

O que fazer, santo Deus?
Não quero nos lábios meus
Semelhante vendaval
Ai. O Amor!

Não sei o que pretendias
Quando beijos me pedias…
Disto lembrar, quem suporta?
Ai, o Amor!

Querias que eu abrisse a porta,
p’ra ocupar meu coração,
Mas a isso eu digo NÃO!

Será Amor?

Image and video hosting by TinyPic

Mariazita

Lisboa, Agosto de 2008

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A CONCHA-MENINA


A CONCHA-MENINA

Lá, onde o sol nasce no mar
Há uma cabana junto à praia
Que, dizem, foi habitada,
Por um génio
Que a deixou encantada.

Dizem ainda
Que nas noites de luar,
De uma concha que se abre,
Linda menina aparece
Logo se pondo a cantar.

Marinheiro que se preze,
Em noite de lua cheia
À praia vem espreitar
E escuta em doce enlevo
Da menina seu cantar.

E quando o dia amanhece
A concha volta a fechar
Mantendo dentro a menina
Que já não pode cantar
Até que surja o luar.

Mariazita

Setembro 2009

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

AMAR OU ODIAR

AMAR OU ODIAR

Fausto Guedes Teixeira

Amar ou odiar
Ou tudo ou nada
O meio termo é que não pode ser
A alma tem de estar sobressaltada
Para o nosso barro sentir; viver
Não é uma Cruz que não se queira pesada

Metade de um prazer, não é um prazer!
E quem quiser a vida sossegada
Fuja da vida e deixe-se morrer!

Vive-se tanto mais quanto se sente

Todo o valor está no que sofremos
Amemos muito como odiamos já!
A verdade está sempre nos extremos
Pois é no sentimento que ela está.

Fausto Guedes Teixeira(11.10.1871–13.07.1940)

Natural da cidade de Lamego Fausto Guedes Teixeira, o expoente máximo do neo-romantismo na poesia lusófona, ficou conhecido como “Musset português” devido à sua poesia contemplativa e melancólica, claramente influenciada pelo estilo de Alfred Musset, poeta francês considerado o expoente máximo do romantismo clássico.
Nascido no seio de uma família aristocrata – seu pai foi o 1º.visconde de Guedes Teixeira - estudou Direito em Coimbra, onde conviveu com muitos dos mais brilhantes intelectuais da época.
Viveu algum tempo no Brasil e de seguida em Moçambique; no regresso a Portugal fixou residência em Lisboa, onde se manteve por 20 anos. Aí desempenhou, entre outras funções, a de jornalista.
Os últimos anos da sua vida foram passados na sua cidade natal, onde faleceu.
Lamego homenageou-o dando o seu nome a uma rua, e mandando erigir um busto seu em frente à Câmara Municipal.
Também em Lisboa e S. Paulo existem ruas com o seu nome.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

LÁGRIMA



Lágrima

Amália Rodrigues

Cheia de penas me deito
E com mais penas me levanto
Já me ficou no meu peito
O jeito de te querer tanto

Tenho por meu desespero
Dentro de mim o castigo
Eu digo que não te quero
E de noite sonho contigo

Se considero que um dia hei-de morrer
No desespero que tenho de te não ver
Estendo o meu xaile no chão
E deixo-me adormecer

Se eu soubesse que morrendo
Tu me havias de chorar
Por uma lágrima tua
Que alegria me deixaria matar


Amália Rodrigues
(1920-1999)

Comemora-se este ano o 10º.aniversário da morte de Amália Rodrigues, que ocorreu a 6 de Outubro de 1999.
Contava, à data, 79 anos de idade, já que nasceu em 1920, num dia de Julho que não se sabe ao certo qual foi.
Aquando da sua morte o então 1º.Ministro António Guterres decretou 3 dias de luto nacional.
Amália deixou uma imagem mítica jamais alcançada por qualquer outra personalidade.
Foi considerada a “Rainha do Fado”; e porque este género musical está intimamente associado à cultura portuguesa, devido às suas actuações num infindável número de países



foi também considerada uma das melhores embaixadoras no mundo.
Para a sua excepcional voz escreveram alguns dos maiores poetas e letristas seus contemporâneos, como David Mourão Ferreira, Pedro Homem de Mello e outros.
Amália gostava de “fazer versos” – como ela dizia - que só os amigos mais íntimos conheciam.
Constitui excepção o poema “Lágrima”, que ela própria cantou e o guitarrista Carlos Gonçalves musicou.

Eis o vídeo em que Amália canta o fado “Lágrima”.


Amália Rodrigues - Lágrima

domingo, 26 de julho de 2009

AVÓS



AVÓS

Luiz Poeta

Num guarda-jóias, num baú, num cofrezinho,
Guardam moedas, selos, fotos, alianças,
Cartas antigas, bibelôs e bilhetinhos,
Que revisitam quando querem ser crianças.

No coração, guardam saudades e lembranças,
Tempos felizes e, quando querem sonhar,
Fecham os olhos, sorriem, entram na dança
De um velho tempo que não pode mais voltar.

Quando estão tristes, basta só que um dos netinhos
Pequenininhos venha com eles brincar,
Trocando doces travessuras por carinhos,
Que eles voltam a sorrir e a sonhar.

Há tanta história na vida desses avós
Que se a gente pudesse ouvi-los contar,
Perceberíamos que nós, sim, estamos sós,
Quando não temos nem tempo para escutar.

Quanto mistério há em cada coração
De cada avô, de cada avó, e nós nem sabemos.
Tanta aventura, tanto amor, tanta paixão,
Vivemos tanto... e diante deles, o que temos?

São tão sozinhos, mas guardam tantas lembranças!
E o que querem de nós, senão o respeito?
Ah... meus avós, quando a dor nos faz crianças,
Que bom seria apertá-los contra o peito...

Autoria: Luiz Poeta -Luiz Gilberto de Barros

Luiz Poeta


terça-feira, 23 de junho de 2009

PEDE-ME


PEDE-ME

Pede-me tudo o que quiseres ter.

Queres a lua?

Num céu profundamente azul
Rodeada de estrelas mil,
Brilhantes,
A lua será tua, meu amor,
A lua dos amantes

Queres o sol?

Envolto em neblina
Para teus olhos proteger,
Sobre um glorioso mar,
De brancas ondas de espuma,
Para o teu corpo dourar
O sol será teu, meu amor.
O sol te vou ofertar

Queres a floresta?
Os rios?
O mar?
O céu azul em festa?

Um corcel alado montarei
Por entre as nuvens voarei,
Numa bandeja de prata
O céu azul colocarei
E a teus pés o deporei.

Tudo o que quiseres ter
Meu amor
Eu te darei

Pede-me tudo o que quiseres ter.

Só não me peças para te esquecer.

Maispa
Luz


Lisboa, 1997

terça-feira, 9 de junho de 2009

FAZER AMOR



FAZER AMOR É PISAR NA ETERNIDADE

Fazer amor é coisa séria demais...
Não basta um corpo e outro corpo,
misturados num desejo insosso,
desses que dão feito fome trivial,
nascida da gula descuidada,
aplacada sem zelo,
sem composturas,
sem respeito,
atendendo exclusivamente a voracidade do apetite.

Fazer amor é percorrer as trilhas da alma,
uma alma tateando outra alma,
desvendando véus,
descobrindo profundezas,
penetrando nos escondidos,
sem pressa,
com delicadeza...

Porque alma tem tessitura de cristal,
deve ser tocada nas levezas,
apalpada com amaciamentos...
até que o corpo descubra cada uma das suas funções.

Quando a descoberta acontece é que o ato de amor começa.

As mãos deslizam sobre as curvas,
como se tocando nuvens,
a boca vai acordando e retirando gostos,
provando os sabores,
bebendo a seiva que jorra das nascentes escorrendo em dons,
é o côncavo e o convexo em amorosa conjunção.

Fazer amor é Ressurreição!!!

É nascer de novo:
no abraço que aperta sem sufocamentos,
no beijo que cala a sede gritante,
na escalada dos degraus celestiais que levam ao gozo.

Vale chorar,
vale gemer...
vale gritar,
porque aí já se chegou ao paraíso e qualquer som há de sair melódico e afinado,
seja grave,
agudo,
pianinho...
há de ser sempre o acorde faltante quando amantes iniciam o milagre do encontro.

Corpos se ajustaram,
almas matizaram...

Fez-se o Êxtase!

É o instante da Paz...

É a escritura da serenidade!

E os amantes em assunção pisam eternidades!!!



Texto de um Frei do Colégio Santo Agostinho

segunda-feira, 1 de junho de 2009

DIA MUNDIAL DA CRIANÇA

Sei que o Dia Mundial da Criança é um dia para festejar – e festeja-se, em muitos locais e em muitas famílias.
Mas não podemos esquecer que a INÚNERAS crianças foi arrancado o direito a festejar.



É nessas, sobretudo que penso, ao dizer-vos:

Hoje, 1 de Junho, Dia Mundial da Criança, ocorre-me chamar a atenção para dois aspectos negros da vida de inúmeras crianças, que, no fundo estão interligados – A PEDOFILIA e A VIOLÊNCIA INFANTIL

Faço-o, trazendo até vós, primeiro, um texto de Faffi (Silvia Giovatto), - “PEDOFILIA” - e um poema de HumbertoPoeta – “POBRES PEDÓFILOS” - , seguidos de um poema de Cris Figueira – “QUEM TIROU TEU SORRISO”.

Pedofilia

faffi
(Silvia Giovatto)

O mundo em que eu nasci, não foi esse, o mundo em que eu quero viver, não é esse.

Quero um mundo de paz... Não pode haver paz onde o homem se assemelha a um animal.

O desrespeito às nossas crianças vem aumentando dia a dia .

Para que isso possa acabar, é preciso que se tome providencias enérgicas, contra essa pedofilia que vem assolando o nosso mundo.

Os pedófilos se escondem atrás de ternos e gravatas e vão praticando essa monstruosidade com as nossas crianças.

Meu grito é de agonia, por me achar incapaz de lutar contra esse mal.
Por favor me ajudem, gritem comigo, para que o nosso grito chegue até alguém capaz de varrer esse lixo-humano da nossa sociedade.

Prisão perpétua para esses cretinos, que se valem de crianças para saciar as suas bestialidades.

Olhando diretamente nos olhos de uma criança que passou por esse trauma, poderemos sentir o seu desespero a sua revolta.

É inexplicável que nada se faça, para que esse mal chegue ao fim.

POBRES PEDÓFILOS!
Humberto Rodrigues Neto

De que planeta bronco e primitivo
procedes com tua sanha animalesca?
De onde trouxeste essa paixão dantesca
que te reduz a um verme repulsivo?

Em que é que pensas quando a fronte lanças
no travesseiro que te embala o sono?
Em que refletes ao sentir-te o dono
de angélicos corpinhos de crianças?

Ah... pobre amigo... nessa compulsão
de torturar um pequenino ser,
nem imaginas quanto hás de sofrer
na eternidade de outra dimensão!

Não mais tendo a quem rogos dirigir,
vociferando entre mil ais agôneos
e a enfrentar toda a turba dos demônios,
só uma frase em teu caos irás ouvir:

"Cumpristes ao inverso, não contestes,
aqueles meus conselhos peregrinos
pois o que destes aos meus pequeninos,
foi, a mim, em verdade, que me destes"!

--- oOo ---


QUEM TIROU TEU SORRISO
(Cris Figueira)

Quem tirou teu sorriso de criança
dilacerando teus sonhos infantis
nunca soube das delícias da infância
não teve um passado tão feliz.

Causa-nos dor, horror, repugnância,
a besta-humana de atitudes vis.
Quem tirou teu sorriso de criança,
dilacerando teus sonhos infantis?

Os poderosos preocupados com a ganância
não enxergam o que acontece no nariz
sómente o povo agarrado a esperança
chora e clama mais justiça no país
para quem tirou teu sorriso de criança!

Rio de Janeiro
16 /05/09
*Dedico às crianças, vítimas de violência!*