E EIS QUE, TENDO DEUS DESCANSADO NO SÉTIMO DIA, OS POETAS CONTINUARAM A OBRA DO CRIADOR.
(MÁRIO QUINTANA)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

ECONOMIA

ECONOMIA

Giuseppe Artidoro Ghiaroni

“Dá de ti. Dá de ti quanto puderes:
o talento, a energia, o coração.

Dá de ti para os homens e as mulheres
como as árvores dão e as fontes dão.

Não somente os sapatos que não queres
e a capa que não usas no verão.

Darás tudo o que fores e tiveres:
o talento, a energia, o coração.

Darás sem refletir, sem ser notado,
de modo que ninguém diga obrigado
nem te deva dinheiro ou gratidão.

E com que espanto notarás, um dia,
que viveste fazendo economia
de talento, energia e coração!”...


Giuseppe Artidoro Ghiaroni


Nasceu em Paraíba Do Sul, (RJ), no dia 22 de fevereiro de 1919.
Depois de ter sido ferreiro, "office-boy" e caixeiro, passou a redator do "Suplemento juvenil " iniciando-se assim no jornalismo de onde passou para a Rádio distinguindo-se como cronista e novelista.
Faleceu no Rio de Janeiro, em 21 de fevereiro de 2008.
Publicou três livros de poesia

domingo, 1 de fevereiro de 2009

CHUVA


CHUVA


A chuva cai.
Violenta, fustigada pelo vento,
Traz consigo as impurezas
Que o Homem,
laboriosamente,
Vai acumulando no infinito azul.

Vendo-a, através das vidraças,
Ouvindo o seu cantar feito de lágrimas,
Pergunto-me :
Quem chorará deste modo ?

Será o céu, em desespero,
Ao ver do Homem a ignomínia,
o mesmo que ultrapassa
todas as barreiras,
e o desvenda,
Em total desrespeito pela sua intimidade ?

Não há lágrimas bastantes
Para um desgosto assim…

Só um dilúvio lhe poria fim !

Mariazita



Lisboa. Abrill 1997

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

QUE MÚSICA ESCUTAS TÃO ATENTAMENTE?




QUE MÚSICA ESCUTAS TÃO ATENTAMENTE?

EUGÉNIO DE ANDRADE


Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?

Que bosque, ou rio, ou mar?


Ou é dentro de ti

que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,

mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.

Deixa-te estar assim,

ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia

que nem dás por mim...


Medo de quebrar o fio

com que teces os dias sem memória.


Com que palavras ou beijos
ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente,

no meio de sombras?

EUGÉNIO DE ANDRADE




EUGÉNIO DE ANDRADE
Pseudônimo de José Fontinhas Rato.
Poeta português nascido na freguesia de Póvoa de Atalaia (Fundão) em 19 de Janeiro de 1923.
Faleceu a 13 de Junho de 2005, no Porto, após uma doença neurológica prolongada.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

(IN) DIREITOS HUMANOS


(IN)DIREITOS HUMANOS

Carmo Vasconcelos
***
Quanta esperança esse justo enunciado
Trouxe ao Homem mais desfavorecido
Num maná de direitos prometido
Depois de longas eras aviltado

Um halo novo iluminou as mentes
Almas rejubilaram de euforia
Corações se inflamaram de utopia
Que homens inda há, puros e crentes

Porém a vilania dos dementes,
De poder e ambição gananciosos,
Faz-se cega aos direitos proclamados

Sobra calçada prós desalojados
Farta é a bolsa dos pecaminosos
E abunda a fome sobre os indigentes

***
(Na comemoração dos 60 anos dos Direitos Humanos
In Grupo Ecos da Poesia)
Dezº/10/2008

Carmo Vasconcelos

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

ILUSÕES DO AMANHÃ

ILUSÕES DO AMANHÃ

'Por que eu vivo procurando um motivo de viver,
Se a vida às vezes parece de mim esquecer?

Procuro em todas, mas todas não são você.
Eu quero apenas viver, se não for para mim, que seja p’ra você.

Mas às vezes você parece me ignorar,
Sem nem ao menos me olhar,
Me machucando p’ra valer.
Atrás dos meus sonhos eu vou correr...

Eu vou me achar, p’ra mais tarde em você me perder.
Se a vida dá presente p’ra cada um, o meu, cadê?
Será que esse mundo tem jeito?
Esse mundo cheio de preconceito.

Quando estou só, preso na minha solidão,
Juntando pedaços de mim que caiam ao chão,
Juro que às vezes nem ao menos sei, quem sou.

Talvez eu seja um tolo, que acredita num sonho.
Na procura de te esquecer, eu fiz brotar a flor.
Para carregar junto ao peito,
E crer que esse mundo ainda tem jeito.
E como príncipe sonhador...
Sou um tolo que acredita, ainda, no amor.'
PRÍNCIPE POETA
(Alexandre Lemos - APAE)


Recebi, com pedido de divulgação, de um amigo brasileiro.

Este poema foi escrito por um aluno da APAE, chamado, pela sociedade, de “excepcional”…
Excepcional é a sua sensibilidade!
Ele tem 28 anos, com idade mental de 15.
Eu peço que divulguem, para prestigiá-lo. Se uma pessoa assim acredita tanto no amor, porquê as pessoas que se dizem normais se fazem de indiferentes?

OBS.
Porque acho de toda a justiça fazê-lo, resolvi publicá-lo aqui, iniciando (ou continuando, assim) uma corrente de solidariedade para com a APAE.

E porque haverá muitas pessoas, principalmente entre os portugueses, que desconhecem o que seja a APAE (eu desconhecia o significado da sigla), veja a informação que consegui colher:

Quando nasceu era:
Associação Paulista de Amparo ao Excepicional

Hoje é
Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais

Mas, sempre , sempre mesmo, foi uma instituição muito séria e dedicada ao axilio do excepcional

Um grande trabalho. Uma grande obra, com objetivos definidos e nobres e honestos ao extremo.

Se puderem ajudem e tenham a mais absoluta certeza de estarem contribuindo para uma obra séria, composta por gente dedicada que não mede esforços para atingir o seu objetivo de
ajudar, ajudar, ajudar até o esgotamento físico e mental.

APAE uma obra cristã. Um orgulho nacional VIVA A APAE

Obs. ( não é só com dinheiro que se ajuda a obras desse tipo, pois eles necessitam de gente, de idéias, de dedicação, de um envolvimento popular, de nossa simpatia e adesão.)

sábado, 10 de janeiro de 2009

BICHO-AMOR


BICHO-AMOR
Carmo Vasconcelos


Há uma dor perfurante no meu peito
Espinho que fere mas não deita sangue
Verme oculto o bebe e me deixa exangue
Ao nutrir-se de insónias no meu leito

Bicho-amor insistente na porfia
Mói-me as entranhas quando desatina
Meus nervos consome, as forças me mina
E ao mesmo tempo é bem que acaricia

Tento acalmá-lo com a voz de quem
De longe rasga versos escarlate
Mimos d’enlace em rendas de açafate...

Mas pede mais... Voraz, não se contém
Devora-me alma e sangue, não fraqueja
Na gula desse par - amor que almeja

***
Lisboa/Portugal
Dezº/2008
*

Carmo Vasconcelos, nome literário de Maria do Carmo Fernandes de Vasconcelos Figueiredo, é natural de Lisboa.
É autora do livro de poemas “Geometrias Intemporais”, publicado em 2000, e de outros, de poemas – “Memorandum de Fogo”, “Despida de Segredos” e “Ecos do Infinito” - assim como do romance “O Vértice luminoso da Pirâmide” - aguardando publicação.
Pela sua participação em vários Jogos Florais teve o privilégio de ganhar numerosos prémios e menções honrosas.

sábado, 3 de janeiro de 2009

ANO NOVO

ANO NOVO
Maria Lucia Victor


Voem os sonhos livres
nos céus da imaginação
onde se possa ser pássaro ou flor.
Fique o amor em vez da dor.
A esperança que renasce criança.
Toquem os sinos
em campanários de outrora.
Brilhe o sol anunciando a aurora.
Dissipem-se as sombras
na luz mais brilhante
do raiar de um novo ano.
Armem-se os espíritos de coragem.
Na voragem do tempo
tudo vai recomeçar.
É hora de plantar
na nova estação da vida.

28/12/2008

Por cortesia da minha amiga Maria Lucia Victor Barbosa, socióloga, com vários livros publicados, e poetisa nas horas vagas

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

MENSAGEM DE NATAL

Gostaria de ter postado aqui, em devido tempo, uma mensagem de Natal. Tal não foi possível, por motivos alheios à minha vontade.
Hoje, dia 25, espero ainda ir a tempo de vos convidar a ver este lindo poema, que recebi por email, sem indicação de autoria.
Espero que gostem.


A Melhor mensagem de Natal é aquela que sai em silêncio de nossos corações e aquece com ternura os corações daqueles que nos acompanham em nossa caminhada pela vida.


Que neste Natal,
eu possa lembrar dos que vivem em guerra,
e fazer por eles uma prece de paz.

Que eu possa lembrar dos que odeiam,
e fazer por eles uma prece de amor.

Que eu possa perdoar a todos que me magoaram,
e fazer por eles uma prece de perdão.

Que eu lembre dos desesperados,
e faça por eles uma prece de esperança.

Que eu esqueça as tristezas do ano que termina,
e faça uma prece de alegria.

Que eu possa acreditar que o mundo ainda pode ser melhor,
e faça por ele uma prece de fé.

Obrigada Senhor
Por ter alimento,
quando tantos passam o ano com fome.

Por ter saúde,
quando tantos sofrem neste momento.

Por ter um lar,
quando tantos dormem nas ruas.

Por ser feliz,
quando tantos choram na solidão.

Por ter amor,
quantos tantos vivem no ódio.

Pela minha paz,
quando tantos vivem o horror da guerra.

Quero agradecer a todos vocês o carinho com que me receberam e o apoio que me têm prestado.
Sem eles eu teria que desistir. Assim, sinto-me com força para ir continuando, sempre que possível, sem esquecer também o apoio das minhas colaboradoras.
A todos um grande beijinho de gratidão
Líria

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

JOSÉ RÉGIO







Iniciamos o ciclo José Régio com a sua coroa de glória

CÂNTICO NEGRO

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces

Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

AMAR


AMAR

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar:
Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro
e toda a gente

Amar! Amar!
E não amar ninguém!
Recordar?
Esquecer?
Indiferente!...
Prender ou desprender?
É mal?
É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
durante a vida inteira
é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!
E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada,
que seja a minha noite uma alvorada.
Que me saiba perder...

pra me encontrar!...


Florbela Espanca

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO

OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO

Descalça caminho no campo verdejante
Enquanto cantam aves e os rouxinóis
Nua, coberta com um véu esvoaçante
Acenando para mim sorriem os girassóis

Esfuziante solto pipa colorida ao léu…
Em contraste com o azul anil e o branco
Contemplo a beleza na imensidão do céu
Na relva o frescor dos lírios do campo

Esbaforida brinco com a cabeleira do mato
Esse amor lírico que em ti eu almejo…
Alguns lírios enfeitam o córrego e o lago

No reflexo da água imagem tua eu beijo
Influxo de um delírio senta ao meu lado
Divago novamente entre o sonho e o desejo.

Olhai os Lírios do Campo
Autora: Lu Lena

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

HISTÓRIA ANTIGA


HISTÓRIA ANTIGA

Miguel Torga

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
uma cara de burro sem cabresto
e duas grandes tranças.

A gente olhava, reparava, e via
que naquela figura não havia
olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
o malvado,
só por ter o poder de quem é rei,
por não ter coração,
sem mais nem menos
mandou matar quantos eram pequenos
nas cidades e aldeias da nação.

Mas
por acaso ou milagre, aconteceu
que, num burrinho, pela areia fora,
fugiu
daquelas mãos de sangue um pequenito
que o vivo sol da vida acarinhou:
E bastou
esse palmo de sonho
para encher este mundo de alegria;
para crescer, ser Deus,
e meter no inferno o tal das tranças,
só porque ele não gostava de crianças.