E EIS QUE, TENDO DEUS DESCANSADO NO SÉTIMO DIA, OS POETAS CONTINUARAM A OBRA DO CRIADOR.
(MÁRIO QUINTANA)

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

REGRESSO AO LAR

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Sem qualquer motivo aparente há dias veio-me à ideia este poema de Guerra Junqueiro que, quando era menina e moça, decorei. Já só me lembrava das duas primeiros estrofes; o resto tinha-se perdido nos escaninhos da memória…
Fui à Net e consegui encontrá-lo na íntegra.
Espero que vos agrade tanto quanto a mim.

REGRESSO AO LAR

Ai, há quantos anos que eu parti chorando
Deste meu saudoso, carinhoso lar!...
Foi há vinte?... há trinta?... Nem eu sei já quando!...
Minha velha ama, que me estás fitando,
Canta-me cantigas para me eu lembrar!...

Dei a volta ao mundo, dei a volta á Vida...
Só achei enganos, decepções, pesar...
Oh! ingénua alma tão desiludida!...
Minha velha ama, com a voz dorida,
Canta-me cantigas de me adormentar!...

Trago d'amargura o coração desfeito...
Vê que fundas mágoas no embaciado olhar!
Nunca eu saíra do meu ninho estreito!...
Minha velha ama, que me deste o peito,
Canta-me cantigas para me embalar!...

Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho
Pedrarias d'astros, gemas de luar...
Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!...
Minha velha ama, sou um pobrezinho...
Canta-me cantigas de fazer chorar!...

Como antigamente, no regaço amado,
(Venho morto, morto!...) deixa-me deitar!
Ai, o teu menino como está mudado!
Minha velha ama, como está mudado!
Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!...

Canta-me cantigas, manso, muito manso...
Tristes, muito tristes, como à noite o mar...
Canta-me cantigas para ver se alcanço
Que a minh'alma durma, tenha paz, descanso,
Quando a Morte, em breve, m'a vier buscar!...

Guerra Junqueiro , 1890


(17.09.1850 – 07.07.1923)

Abílio Manuel Guerra Junqueiro nasceu em Freixo de Espada à Cinta e faleceu em Lisboa.
Foi bacharel em Direito formado pela Universidade de Coimbra, político (deputado), jornalista, escritor e poeta.
Poeta panfletário, a sua poesia ajudou criar o ambiente revolucionário que conduziu à implantação da República.
Deixou-nos obras de grande vulto, das quais me permito destacar “A Velhice do Padre Eterno”, de que gosto imenso, e que inclui o conhecido poemeto “O Melro”:

“O Melro, eu conheci-o: Era negro, vibrante, luzidio, madrugador, jovial; começava a soltar, d’entre o arvoredo verdadeiras risadas de cristal. E assim que o padre-cura abria a porta que dá para o passal, repicando umas finas ironias, o melro, d’entre a horta dizia-lhe: “bons dias!” E o velho padre-cura não gostava daquelas cortesias.” - Uma verdadeira delícia!

17 comentários:

Ana Martins disse...

Boa noite Mariazita,
foi um prazer beber desta partilha, adorei!

Beijinhos,
Ana Martins
Ave Sem Asas

Nilce disse...

Lindo, lindo, Mariazita.
Obrigada por compartilhar tamanha beleza de poema.

Bjs no coração!

Nilce

xistosa - (josé torres) disse...

Recordar é viver!
E quando é com qualidade, é um luxo, como este poema.

Um abração

Sonhadora disse...

Minha querida
Um belo poema de Guerra Junqueiro.
Obrigada por partilhares.
Tem selo no meu blog de um ano, estou comemorando espero as amigas e tu és uma delas.

Beijinhos com carinho
Sonhadora

Graça Pereira disse...

Minha Querida
Há quanto tempo não lia este poema de Guerra Junqueiro! E fez-me saudades...
Tambem gosto muito da obra "A velhice do Padre Eterno" e o poemeto sobre "O Melro" é de uma candura e beleza...sem fim!
Os clássicos, não morrem...por alguma razão, não é?
Beijo
Graça

Maria João disse...

Mariazita

Ler ou reler a ternura e a sabedoria de vida, na poesia de Guerra Junqueiro, é como regressar a casa.

Um enorme beijinho

Cida disse...

Muito lindo mesmo, amiga!

Obrigada por compartilhar conosco.

Beijinhos, e tudo de bom prá você.

Cid@

Tétis disse...

Olá Mariazita

Passei aqui e, como sempre, adorei o que partilhas connosco.

Desta vez o grande Guerra Junqueiro e um poema magnífico que muito revela da sua escrita cheia de simbologia e imagética.

"A velhice do padre eterno" é uma obra magnífica. "O Melro", tal como dizes, é uma verdadeira "delícia" que merece ser lido na íntegra e analisado.

Beijinhos

Chica disse...

Lindo poema e que bom te ver novamente.

Estava com saudades!

um bom retorno às atividades e rotinas normais!

Tudo de bom,beijos,chica

Irene Moreira disse...

Mariazita
Que gosto ler este poema de Guerra Junqueiro.

Sempre bom o regresso ao Lar.

Beijos e um bom final de semana

Táxi Pluvioso disse...

Ai o nosso lar, cemitério, lhe chamam os menos poetas. boa semana

Adelaide disse...

Querida Mariazita,

A minha curiosidade levou-me a ler os belos comentários de tão belos amigos/as que tens. A começar pela Ana que tanto admiro, adorei a frase que dela partiu "foi um prazer beber desta partilha"!!!
Todos os outros comentários admiram o teu belo poema de Guerra Junqueiro. Assim como o do Melro.
E agora o que tenho eu para dizer querida amiga? Deste provas que não esqueces os nossos poetas. Fizeste nascer em mim o desejo de pegar nele, assim como noutros. Adorei!
Bejinhos
Milai

poetaeusou . . . disse...

*
A dor é a escada de fogo
que nos conduz à vida eterna !
,
in-Guerra Junqueiro,
,
*

Sandra disse...

Venho carinhosamente retribuir o seu carinho em ter vindo me visitar.
As amizades são conquistadas assim: com muito carinho e zelo. Agradeço com muito carinho a sua presença. Isso sim me deixa muito feliz. é ter a certeza que sempre estamos juntos compartilhando bons momentos.
O que mais me faz feliz é saber que posso contribuir um pouquinho mais para a felicidade daqueles que me rodeias todos os dias, é deixar um carinho e um cheiro bem especial a todos., é poder exalar o perfume das rosas por onde ondo. Muito obrigada por ser esta flor em meu Jardim.
Carinhosamente,
Sandra

Saozita disse...

Querida Mariazita, Guerra Junqueiro é um mestre da literatura portuguesa. É sempre com grande prazer que relemos os seus textos e poemas. Também gosto de regresso ao lar. Boa escolha!

Beijos com amizade.
Sãozita

Barbara disse...

Foi bom ter vindo.
Encantei-me com o melro.

Fernanda disse...

Querida Mariazita!

Bela forma de retornar a casa!
Partilhar o conhecimento e revisitar as nossas memórias.
Adorei.
Beijos