E EIS QUE, TENDO DEUS DESCANSADO NO SÉTIMO DIA, OS POETAS CONTINUARAM A OBRA DO CRIADOR.
(MÁRIO QUINTANA)

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

REENCONTRO

(Foto minha)

REENCONTRO

De repente surgiu o desejo,
de fazer-te um poema.
Dizer-te, por palavras,
Neste nosso reencontro,
O que um simples olhar
Não teria força para expressar.

Quisera, haver em mim, beleza
Para te dar.
Mas a imagem, pelo espelho reflectida,
Mostra que o tempo passou
E não parou.
E como passou!

Para este nosso reencontro
Insinuaste um sinal,
Temendo estragos que o tempo tenha feito.

“Talvez de flor ao peito”…
Gracejaste, recordando tempos idos,
em que fingíamos ser desconhecidos.

Havia ironia na tua voz,
Brincavas.

Ironia maior a do destino,
Que nas marcas deixadas pelo tempo,
Não deixou espaço para o esquecimento.

Maispa
Luz


quarta-feira, 8 de setembro de 2010

REGRESSO AO LAR

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Sem qualquer motivo aparente há dias veio-me à ideia este poema de Guerra Junqueiro que, quando era menina e moça, decorei. Já só me lembrava das duas primeiros estrofes; o resto tinha-se perdido nos escaninhos da memória…
Fui à Net e consegui encontrá-lo na íntegra.
Espero que vos agrade tanto quanto a mim.

REGRESSO AO LAR

Ai, há quantos anos que eu parti chorando
Deste meu saudoso, carinhoso lar!...
Foi há vinte?... há trinta?... Nem eu sei já quando!...
Minha velha ama, que me estás fitando,
Canta-me cantigas para me eu lembrar!...

Dei a volta ao mundo, dei a volta á Vida...
Só achei enganos, decepções, pesar...
Oh! ingénua alma tão desiludida!...
Minha velha ama, com a voz dorida,
Canta-me cantigas de me adormentar!...

Trago d'amargura o coração desfeito...
Vê que fundas mágoas no embaciado olhar!
Nunca eu saíra do meu ninho estreito!...
Minha velha ama, que me deste o peito,
Canta-me cantigas para me embalar!...

Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho
Pedrarias d'astros, gemas de luar...
Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!...
Minha velha ama, sou um pobrezinho...
Canta-me cantigas de fazer chorar!...

Como antigamente, no regaço amado,
(Venho morto, morto!...) deixa-me deitar!
Ai, o teu menino como está mudado!
Minha velha ama, como está mudado!
Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!...

Canta-me cantigas, manso, muito manso...
Tristes, muito tristes, como à noite o mar...
Canta-me cantigas para ver se alcanço
Que a minh'alma durma, tenha paz, descanso,
Quando a Morte, em breve, m'a vier buscar!...

Guerra Junqueiro , 1890


(17.09.1850 – 07.07.1923)

Abílio Manuel Guerra Junqueiro nasceu em Freixo de Espada à Cinta e faleceu em Lisboa.
Foi bacharel em Direito formado pela Universidade de Coimbra, político (deputado), jornalista, escritor e poeta.
Poeta panfletário, a sua poesia ajudou criar o ambiente revolucionário que conduziu à implantação da República.
Deixou-nos obras de grande vulto, das quais me permito destacar “A Velhice do Padre Eterno”, de que gosto imenso, e que inclui o conhecido poemeto “O Melro”:

“O Melro, eu conheci-o: Era negro, vibrante, luzidio, madrugador, jovial; começava a soltar, d’entre o arvoredo verdadeiras risadas de cristal. E assim que o padre-cura abria a porta que dá para o passal, repicando umas finas ironias, o melro, d’entre a horta dizia-lhe: “bons dias!” E o velho padre-cura não gostava daquelas cortesias.” - Uma verdadeira delícia!